CARTA-COMPROMISSO DO MUTIRÃO DO CURSO DE VERÃO NA TERRA DO SOL – 2022

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XXI CURSO DE VERÃO NA TERRA DO SOL

Tema: Trabalho justo e comida no prato para viver com dignidade
Inspiração bíblica: “O que nós esperamos são novos céus e nova terra, onde habitará a justiça” (2Pd 3,13)

CARTA-COMPROMISSO DO MUTIRÃO DO CURSO DE VERÃO NA TERRA DO SOL – 2022

No mês de setembro de 2022, no período de 13 a 20, o mutirão do Curso de Verão na Terra do Sol reuniu-se inspirado pela utopia da construção da justiça, em um país marcado por profundas desigualdades e apartações sociais, agravadas pela tragédia da precarização do trabalho e pela fome que atinge cerca de 33 milhões de brasileiras e brasileiros.

Nesta caminhada, fomos iluminados pelo texto bíblico da Segunda Carta de São Pedro (3,13), que nos convoca à esperança ativa: “O que nós esperamos são novos céus e nova terra, onde habitará a justiça.”

O mutirão reuniu, ao longo de dez dias, na modalidade virtual, cerca de 120 pessoas, entre cursistas, artistas da caminhada, parceiras e parceiros, equipe técnica e pessoas envolvidas na partilha de saberes. Desenvolvemos uma temática profundamente enraizada no cotidiano do povo brasileiro: Trabalho justo e comida no prato para viver com dignidade.

Abrimos o curso assumindo o desafio de realizar uma leitura crítica do Brasil do Presente, especialmente a partir do Golpe de 2016. Essa análise se deu em dois níveis. No plano mais geral, destacamos questões estruturantes que exigem reflexão crítica: a crise contemporânea brasileira; a arquitetura do Golpe de 2016, com o desmonte de direitos historicamente conquistados, das políticas públicas, do Estado e da Constituição Cidadã de 1988; o bolsonarismo como fenômeno sociopolítico de hegemonia das direitas; e a crise da democracia.

Nesse contexto, construímos reflexões específicas sobre as eleições gerais de 2022, compreendidas como um momento decisivo da luta de classes no Brasil, no qual estavam em disputa o presente e o futuro do país, bem como as condições concretas de vida da população. Reafirmamos a importância da lucidez política para eleger candidatas e candidatos comprometidos com as lutas das trabalhadoras e dos trabalhadores, com a justiça social e com a preservação da Casa Comum.

A partir da inspiração bíblica, reafirmamos o horizonte que nos move: novos céus e nova terra, onde habitará a justiça. Nesse sentido, contextualizamos a Segunda Carta de Pedro no conjunto das epístolas católicas, resgatando a força da experiência das primeiras comunidades cristãs e situando seu contexto histórico no interior do Novo Testamento.

Na perspectiva de que somos participantes da natureza divina, reconhecemos a necessidade de viver em prontidão, aguardando a vinda do Senhor, assumindo a verdadeira missão cristã: testemunhar Jesus Cristo. Em um mundo marcado por injustiças e apartações, somos chamados e chamadas à perseverança na fé e à reafirmação cotidiana da esperança ativa em novos céus e nova terra.

Como referência filosófica para iluminar a temática do curso, aprofundamos a análise intitulada “Fundamentos éticos para uma sociedade justa: uma crítica fundante à ordem do capital”. Partimos da compreensão do ser humano em sua complexidade: parte constitutiva da natureza e do universo, dotado de consciência reflexiva, capaz de interrogar a si mesmo, suas ideias e desejos. O ser humano não é um ser acabado; sua tarefa é desenvolver suas potencialidades em direção ao Bem Viver.

Homens e mulheres se constituem na relação com os outros e com a natureza, sendo capazes de efetivar a liberdade. Contudo, na lógica da economia capitalista, tudo passa a girar em torno do lucro e da exploração dos seres humanos e da natureza. A destruição da Casa-Mãe é fruto direto dessa ganância. A construção de uma outra economia torna-se, assim, parte essencial da missão cristã.

Um dos pontos altos do Curso de Verão 2022 foi a Mesa de Partilha de Olhares e Saberes, na qual compartilhamos experiências de resistência em diversas áreas. Destacaram-se iniciativas de economia solidária como formas alternativas de organização do trabalho; reflexões sobre juventudes e violência, marcadas por dor, mas também pela riqueza das experiências de enfrentamento; o aprofundamento da realidade da população LGBTQIAPN+ e das pautas identitárias; e o reconhecimento da interseccionalidade como desafio do nosso tempo. A cosmovisão indígena revelou-se, mais uma vez, como uma resposta potente à lógica destrutiva do capital.

O conjunto dessas experiências reforçou nossa esperança e abriu caminhos concretos de enfrentamento ao capitalismo que destrói a natureza, precariza o trabalho e gera fome, sofrimento e caos social.

Aprofundando a temática, realizamos a mesa “Trabalho como fonte de humanização e a precarização do trabalho na civilização do capital”. Foram discutidas diversas dimensões críticas: o trabalho não apenas como meio de sobrevivência, mas como continuidade da criação; a tensão entre humanização e mercantilização do trabalho; a precarização e a exploração no mundo contemporâneo; e os impactos da robotização, da internet das coisas e das plataformas digitais.

Destacou-se a dupla natureza do trabalho: sua dimensão ontológica, como constitutiva do ser social, e sua forma alienada na civilização do capital. Analisou-se criticamente a superexploração do trabalho no Brasil, com destaque para a uberização, que aprisiona subjetividades e compromete a vida das trabalhadoras e dos trabalhadores. Reafirmamos a urgência da luta por formas emancipatórias de trabalho, orientadas pela justiça.

Outra mesa de reflexão abordou a segurança alimentar, enfatizando a produção e o acesso aos alimentos como exigência fundamental da vida. Denunciamos a fome, a má qualidade dos alimentos e o uso intensivo de agrotóxicos, destacando experiências comunitárias que apontam alternativas. Reafirmamos que a luta contra a fome passa, necessariamente, pela defesa dos direitos sociais, entre eles o direito à alimentação digna.

Inspirados na experiência de 2021, desenvolvemos as “Conversas de Calçada”, uma metodologia participativa que envolveu diretamente os cursistas, organizada por equipes compostas por coordenação, sistematização e arte. Foram constituídos quatro grupos que, ao longo de três dias, trabalharam as temáticas do mutirão por meio de debates e expressões artísticas, como: bonecos com material reciclável, cuidado do cuidador, música e arte colagem. Essa proposta reafirmou a metodologia do Curso de Verão, fundada na integração crítica entre razão e arte.

As reflexões e debates realizados ao longo do curso conduziram-nos à afirmação de compromissos concretos, a serem encarnados na vida cotidiana:

  • assumir o enfrentamento ao sistema de morte vigente, lutando por trabalho justo e comida no prato para todas as pessoas;
  • engajar-se nas lutas pela democracia, enfrentando o autoritarismo e o nepotismo;
  • defender a Casa-Mãe e fortalecer as lutas dos povos originários — indígenas, quilombolas e ribeirinhos;
  • apoiar a economia popular solidária como alternativa de geração de renda e desenvolvimento sustentável (quintais produtivos, farmácias vivas, feiras agroecológicas, entre outros);
  • promover ações comunitárias de conscientização, como a criação de hortas comunitárias e a revitalização do horto do Pici;
  • realizar grupos de leitura bíblica com chaves de interpretação libertadoras, que despertem o engajamento social;
  • estimular práticas de cuidado e alimentação saudável, fortalecendo a cultura da recusa ao consumismo, confiando que a semente lançada produzirá frutos.

Comprometemo-nos a resistir e celebrar a teimosia da esperança, afirmando a centralidade da VIDA em sua totalidade, integrando vida humana e planeta em um horizonte de felicidade plena, diversidade e graça.

Concluímos agradecendo a todas as pessoas que construíram este Mutirão e louvando a Deus Pai e Mãe com as palavras de Jesus:
“Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11,25).

Que nossa vida seja resposta permanente à missão profética na construção do Reino do Pai.

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