CARTA COMPROMISSO DE 2006

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Caminhos de vida gestados de dentro da Tenda Mãe

Reunidos durante duas semanas, no período de 3 a 15 de julho, em Fortaleza (CE), em um grande mutirão que envolveu cerca de 200 participantes — vindos dos estados do CE, PI, BA, AM, RN, PE, PB, MS e MT, entre cursistas, monitores e assessores — vivenciamos a experiência do Curso de Verão na Terra do Sol. Trabalhamos a temática “Natureza: Casa de Homens e Mulheres”, inspirada na reflexão bíblica dos primeiros onze capítulos do livro do Gênesis.

Nesse período, no qual articulamos reflexões e vivências artísticas no cotidiano do curso, nosso esforço concentrou-se na desconstrução de visões ingênuas e tradicionais, geradoras de opressão e discriminação, para (re)construir uma consciência libertadora, fundamentada no refazer das relações entre natureza, homens e mulheres. Temos como horizonte a utopia do “jardim da vida”, que propicia fartura, partilha, respeito e igualdade, enraizada na fé em um Deus Pai que nos faz irmãos e irmãs.

Com essa perspectiva, orientados por Sandro Gallazzi, desenvolvemos uma interpretação bíblica situada no contexto histórico de sua formação. Buscamos, para além dos estilos literários, resgatar mensagens que respondem a três questões fundamentais: como Deus se revela, onde encontrá-lo e o que Ele quer de nós. Nessa direção, refletimos sobre textos bíblicos centrais: as duas narrativas da Criação, a história de Caim e Abel, o mito do Dilúvio e o da Torre de Babel.

Na dinâmica de desconstrução e reconstrução, tornou-se clara a face do Deus Uno e Criador, que coloca homens e mulheres no centro da Criação, conferindo-lhe sentido. Sem se perder em detalhes ou confrontar a Ciência, a reflexão bíblica revela o mundo como um “jardim de delícias e farturas” — paraíso — a ser cuidado por homens e mulheres em plenitude de vida. No contexto do domínio da monarquia, surge o mito da “expulsão do paraíso” como forma de justificar o sofrimento e o jugo imposto ao povo pelo rei. Toda a saga do povo de Deus, assim, aponta para a libertação.

A história de Caim e Abel foi compreendida como narrativa do conflito de interesses entre grupos, dando origem a civilizações fundamentadas em “sagas etiológicas”. Visualizamos as cidades como sinais de dominação, ao reunirem o armazém para acumular, o exército para defender, o palácio para administrar o poder do rei e o templo para legitimar o domínio.

Inspirados pela relação inseparável entre Bíblia e Vida, avançamos na análise sociopolítica, reafirmando uma convicção fundamental: a destruição da natureza está diretamente ligada à lógica ilimitada do capital, que cria apartações e dissociações. A luta consiste em superar a dicotomia entre natureza, homens e mulheres, reconhecendo que somos natureza e que precisamos viver, com coerência, a ética do cuidado.

Voltando o olhar para o Brasil de nossos dias, articulamos análises que nos permitiram desvelar as contradições do cenário econômico, social, político e cultural do país. Evidenciamos desafios e dilemas do Brasil contemporâneo, bem como os avanços e limites da sociedade organizada em suas lutas e conquistas.

A análise revelou, com clareza, que tais contradições — expressão do confronto de interesses — nos desafiam permanentemente a avançar nas lutas populares, em direção a um modelo de desenvolvimento sustentável que assegure inclusão e vida digna. O grande desafio é (re)construir uma sociedade para além do capital: o jardim de farturas e delícias, onde possamos viver, criar e amar.

Renovados pelas vivências de fé e partilha dessas duas semanas no ventre da Tenda Mãe do Curso de Verão, na Terra do Sol, reafirmamos nossa disposição de continuar a caminhada, assumindo os seguintes compromissos de vida:

  • desconstruir visões ingênuas e opressoras, construindo uma nova mentalidade libertadora, sendo luz na gestação da consciência do povo de Deus em sua caminhada de libertação;
  • acolher a interpelação de Deus que nos chama a discernir e desmascarar os mecanismos de dominação, comprometendo-nos com projetos que priorizam a vida;
  • comprometer-nos com a construção de um mundo novo, ecologicamente sustentável, socialmente justo, economicamente viável e respeitoso da igualdade e das diferenças;
  • cultivar uma ética do cuidado e posturas de inclusão, radicalizando a ruptura com a perversidade do sistema do capital e buscando alternativas às desigualdades e exclusões que atingem violentamente as chamadas “populações supérfluas”;
  • lutar pela inclusão dos irmãos e irmãs excluídos na vida plena, com acesso aos direitos, à dignidade e ao jardim das farturas e delícias;
  • colocar-nos disponíveis para a redescoberta de nossa condição de filhos e filhas da Criação, abrindo-nos ao coletivo e à vivência de um novo Gênesis;
  • reafirmar o empenho na construção de uma visão ecumênica que reúna irmãs e irmãos de um mesmo Pai Criador, respeitando as diferentes formas de religiosidade e espiritualidade;
  • aprofundar o estudo bíblico, buscando respostas para os desafios do nosso tempo e atualizando a perspectiva e a metodologia catequética;
  • valorizar a arte como espaço de criação de novas relações com a natureza e entre homens e mulheres;
  • assumir o compromisso de partilhar, em nossas comunidades, as mensagens e vivências experimentadas na Tenda Mãe do Curso de Verão na Terra do Sol DE 2006.

Cursistas 2006

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